Aqui ainda se suspira por Frank Gehry - Eu só um deles!
Aqui ainda se suspira por Frank Gehry
Oito anos depois, o Parque Mayer ainda estrebucha, mas o Pai Manel já lá não está. "Cansou-se de esperar". Entre promessas de recuperação, a "pequena Broadway lisboeta" envelheceu, largou estuque, perdeu gente, esfarelou-se e recheou-se de pombos e ninhadas de ratos. Agora, nova promessa, zunzum de arquitectos e ideias. Mas no Parque Mayer encolhe-se os ombros, torce-se o nariz. Ali não se acredita.
Os turistas entram pelo portão que espreita a Av. da Liberdade. Avançam passo a passo, olham de esguelha, viram os mapas de pernas para o ar. "São milhares. Vêm só para fotografar", atesta Manuela Novaes, dona do "restaurante mais cor-de-rosa do Parque Mayer". Um dia, intrigada, perguntou porquê. "Sabe o que me disseram? Vêm fotografar o antes do Frank Gehry, para mais tarde virem fotografar o depois".
Mas não há depois. Quando em 2007 o executivo PSD de Carmona Rodrigues caiu, o socialista António Costa assumiu os destinos da câmara e do Parque Mayer: o projecto de recuperação do arquitecto Frank Gehry - que desenhou o Museu Guggenheim de Bilbau - foi apelidado de "megalómano" e arredado sem que a autarquia recuperasse os 2,5 milhões de euros que tinha pago pelas maquetas. Em Novembro, o município lançou um concurso de ideias para a reabilitação do espaço, que deveria ter terminado no mês passado. Cinco equipas de arquitectos disputam ainda a fase final.
"Desanimou-me que pusessem o estudo do arquitecto Gehry na gaveta. Era um projecto, agora são cinco. O primeiro cobria só o parque, agora eles abrangem o [Jardim] Botânico e a Escola Politécnica. Ora bem, cheira-me que esta iniciativa está condenada ao fracasso e que só nos estão a atirar areia para os olhos. É que se não havia dinheiro para o Gehry megalómano, onde irão arranjá-lo agora?" A pergunta de Hélder Costa, empresário do Maria Vitória, único teatro sobrevivente, anda de boca em boca pelos resistentes do Parque Mayer.
Apetites imobiliários
"A nossa grande hipótese foi desde logo o casino. Se tivesse vindo para aqui, tudo seria diferente. E quem me dera que o projecto do arquitecto Frank Gehry tivesse vingado. Um Guggengeim em Lisboa acabaria com o deserto em que se transformou a Baixa", lamenta Manuela Novaes. Em 2002 e invocando a necessidade de um debate mais alargado sobre o tema, o então presidente Jorge Sampaio vetou o decreto-lei que permitia a instalação do casino. Os comerciantes não lhe perdoam. "O que é que o ex-presidente Jorge Sampaio teria contra o Parque Mayer, contra a Av. da Liberdade?", indaga Manuela Novaes.
"O grande mal da política em Portugal é devorar-se a si própria, destruir o que o outro construiu é mais importante que tudo o resto", prossegue Hélder Costa. "Este projecto de Frank Gehry entusiasmava-me. Ele é uma pessoa muito culta e com grande respeito pelo teatro. Idealizou um muito grande, outros mais pequenos e um casino, mas estava aberto a discutir e a afinar ideias".
O empresário diz estar pronto para um novo Parque Mayer. Já lá vão quase 40 anos. "Pouco depois de chegar ao Capitólio, já se falava num projecto de dimensão extraordinária do arquitecto Carlos Ramos [1969]. Dizia-se que era uma loucura, porque previa uma ligação ao metro e um viaduto que entroncava na Av. da Liberdade". Idealizava duas torres, uma para 448 quartos do hotel Hilton, e três teatros. Houve barulho, mas nada aconteceu. Com Gehry foi a mesma coisa.
Embora reconheça que tem "dificuldade em perceber a lógica do concurso de ideias" lançado pela autarquia, Hélder Costa revê--se nas ideias de um dos finalistas, o ateliê ARX Portugal. Agrada-lhe o regresso da comédia e do cinema, a comunhão das artes, o museu do teatro, mas sobretudo a preservação da revista. "O Parque Mayer tem de ter pelo menos três teatros. Gostava de ter os quatro, mas a verdade é que já estamos a lutar para que não sejam zero. E o teatro de revista traz milhares de pessoas à cidade. Tem de ser estimado".
A todo o gás, o primogénito Maria Vitória funciona a um canto, entre os teatros mortos. Inspira 600, expira 600. Entra excursão, sai excursão. Políticos, artistas, carros topo de gama. Seis centenas de bilhetes por sessão esgotados com meses de antecedência. "Têm a mania de dizer que o Parque Mayer morreu e o pior é que as pessoas acreditam", atira Hélder Costa.
Ainda se lembra do dia em que ali aterrou, 8 de Setembro de 1964, à procura de trabalho e longe de imaginar que viria a ser empresário do teatro mais antigo do espaço. Tinha acabado de ser despedido do Banco Lisboa e Açores, na Rua do Ouro, última janela. Motivo: "23 anos de idade e bailaricos". Os contínuos picavam-lhe o ponto à hora certa para ocultar os sucessivos atrasos até ao dia em que se deparou com o "chefe à porta". Foi dito e feito: no mesmo dia estava na rua.
O novo emprego foi escolhido "ao acaso" nos classificados de um jornal. E assim se tornou empregado do empresário Giuseppe Bastos, que explorava o cineteatro Capitólio e a quem viria a suceder no negócio em 1975. Foi dar com um "Parque Mayer velho" (de 1922), mas repleto de gente. "Eram homens da finança, da escrita, dos jornais, artistas, jogadores e pessoas que vinham só para os ver passar".
Hoje o parque também é velho, mas tem ar de morto, dispara Hélder Costa. "Nem me falem nisso." Foi ver os teatros desactivados no âmbito do novo concurso e "nem queria acreditar". O teatro ABC? "Não existe, não vale a pena recuperar, chove lá dentro". Resta-lhe a velha carcaça branca, o letreiro tombando sobre a fachada, "mais nada". O Capitólio "está transformado num pombal".
E o Variedades? "Foi vítima de uma degradação criminosa". Em 1990, por 100 mil contos (500 mil euros), foi "picado até ao cimento" e totalmente recuperado. Mas a reabertura chocou de frente com a atenção concentrada na invasão do Kuwait. "Em 2006, o ex-presidente Carmona Rodrigues mandou retirar as cadeiras por causa de uma exposição, mais tarde partiram-lhe os vidros e entrou tudo o que se possa imaginar". Até pulgas.
"Não sei que dia ditou o princípio do fim do Parque Mayer. Começou ainda quando o espaço pertencia à Avenida Parque e os apetites imobiliários se tornaram mais fortes. A política da terra queimada destruiu-nos. As lojas começaram aos poucos a fechar. Quando há nove anos a Bragaparques veio, foi a desgraça total. Como não estávamos dispostos a ir embora, negociaram indemnizações e forçaram saídas", conta o representante dos comerciantes, Júlio Calçada.
Mas "o pior" foi mesmo quando puseram fim ao estacionamento. "Isso sim, ia acabando connosco. Foi nessa altura, em 2000, que o Pai Manel - era assim que o meu pai era tratado por todos -, foi doente para a entrada explicar a quem passava que o Parque não tinha fechado. Foi uma dor... É uma dor. Tem 81 anos e veio para aqui aos 13. Já não consegue ver esta degradação", lamenta Júlio Calçada, que assumiu o negócio familiar do restaurante O Manel.
Diz quem por ali ficou que a saga Parque Mayer é, de resto, uma "sucessão de absurdos". "Além dos projectos falhados, há coisas que não batem certo. Como é possível que a permuta do terreno entre a Bragaparques e a câmara se tenha baseado na premissa falsa de que o espaço estaria devoluto? Como trocaram este espaço entalado na zona histórica por um terreno camarário situado numa zona mais valiosa?", questiona Júlio Calçada.
O comerciante não percebe também por que motivo é que a Bragaparques continuou a explorar o parque de estacionamento ao longo de 20 meses após ter assinado a escritura da permuta com a câmara. Nem compreende por que é que a autarquia lhe paga água e luz desde Agosto de 2005. A ele, a outros três comerciantes e ao empresário do Maria Vitória. "Já avisei os responsáveis e nada. Não há maneira de resolverem a questão. Quero pagar as minhas próprias despesas. Será pedir muito?"
Hélder Costa acha que a Guerra do Golfo asfixiou o Variedades, que fechou após a revista televisiva Grande Noite

